Era uma vez

(Contava eu a minha filha)

Dona Joana Carochinha saiu. Era uma manhã cheia de flores e as estrelas à muito que dormiam.

O sol ainda não chegara, havia um lago a meio do caminho onde ele gostava de se olhar e por vezes esse olhar era tão longo que os dias ficavam cinzentos e as nuvens choravam de sós.

A joaninha, como não fazia calor não levava chapéu nem sombrinha, ia leve e de corrida de flor em flor.

Falava-lhes baixinho com palavras redondas e pequenas. As flores olhavam-na, escutavam, sorriam cheirosas e abanavam as cabeças.

Então ela lá voava para outro tufo de flores e outro e outro, mas todas continuavam a acenar que não, acabando algumas por se fechar, outras a se encobrir com folhas e até umas poucas a enfiar o nariz no chão na maior das tristezas!

Desanimada, ainda menor na sua capa vermelha de bolinhas pretas, pousou por fim num bambu junto ao lago, mas longe da margem e das rãs. E chorou em silêncio.

Foi nisto que surgiu o Sol espreguiçando os raios por entre as nuvens que pareciam pássaros a esvoaçar.

E o jardim todo se iluminou, criou vida e sons e aromas. As flores só não dançavam de felicidade por terem nos pés os sapatos de terra.

Então o Sol viu Joaninha quieta, parada e sem sorrir como era costume quando ele aparecia. E quis saber o que se passava.

E ela contou:

– As flores eram tão lindas e ela gostava tanto, tanto delas que hoje resolvera perguntar se alguma quereria ir com ela morar. Mas a sua casinha era pequena, era aquele buraquinho no muro da hera. E nenhuma flor do jardim lhe disse que sim, que teria muito prazer etc. etc., nem uma só quisera ir com ela viver!

O Sol disse que iria pensar e que no outro dia lhe traria flores pequeninas.

E assim foi...

Quando Joana Carochinha tornou a sair na manhã seguinte, depois de as estrelas à muito dormirem, chegou o Sol com um raminho de miosótis azuis.

Parede, 1960


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